Meu nome é Augusto, nasci saudável. Como filho de pais burgueses, classe média assalariada, tive tudo para ser, e fui uma criança saudável e educada. Meus pais, sempre dentro dos princípios ético- morais que culturalmente regem uma família enquadrada e “normal”, pelo menos dentro de suas convicções sinceras, passaram-me boa conduta e disciplina. Lembro-me sempre das peladas aos sábados com meu pai superparticipativo e orgulhosos, pra quem, sem sombra de dúvida, eu já era um grande vencedor, um grande craque da seleção brasileira. Fora a atenção, cresci cercado de comodidades, que, admito, fazia-me privilegiado ante aqueles que não tem sequer um lar. Após a adolescência, educado e amado, num cenário perfeito de sucessos pessoais, sem nunca ter pensado sobre, conheci eu o amor. Pelo menos na minha forma de vê-lo, que não é diferente da de ninguém posto que todos amamos a partir das nossas idealizações buscadas na pessoa do outro. E vi-me, inconscientemente tomado por esse novo sentimento, ao qual todos chamavam paixão. Só que não nos moldes “ético-morais” convencionais, mas da forma que falava mais alto meu coração, minha inclinação natural, ou seja fui tomado de assalto por uma bomba, eu era homossexual!!! Não precisa dizer que como membro de uma família mediana tradicional, de anjo passei a demônio, de pluma leve à pancada mais intragável e forte, um dilúvio, um dos tentáculos da besta do apocalipse que se espraia pela sociedade destruindo a “moral” e os “bons costumes” O que é pior saído da “nossa família!!” E aí vem a frase clássica dos pais: Onde erramos!? Na verdade, quem me ver como ser humano, que sou, vai ver-me relativamente feliz, como qualquer um, vivendo do meu trabalho, educado, minimamente equilibrado para viver em comunhão social Agradeço a Deus os meus pais que me deram a base pra ser o ser humano que sou hoje, que com certeza não resume-se à sexualidade. Ninguém errou! Todos somos individualidades riquíssimas, com gostos, caracteres, qualidades, defeitos e com um acúmulo de experiências próprias e intransferível, apreendido através da vida e “das vidas”, num conjunto de valores que formam a personalidade atual. Tolo quem acha que algum sermão ou reprimenda, ou simples crítica vai mudar uma realidade de cunho tão profundo ou complexo quanto nossa postura psíquica diante da vida. Não só a sexualidade, mas tudo que captamos, digerimos como informação e principalmente vivenciamos submetemos a análise de nossa própria razão, formando o conjunto de nossa individualidade, a identidade, que no íntimo, queiramos ou não, quer a aceitemos ou não, somos! E inconscientemente a exteriorizamos. Ninguém pode ser feliz sem conhecer a si mesmo! Sem assumir uma postura sincera consigo e seus valores mais íntimos ante a vida. Não é assumir pra ninguém, mas pra si mesmo. Saber se trabalhar com equilíbrio optando por uma posição, qualquer que seja ela com responsabilidade e respeito, mas consciente de sua condição. Já dizia o sábio Sócrates: Conhece-te a ti mesmo! Mas como conhecer a mim mesmo e conseqüentemente ser feliz se quando parto pra o meu mundo exterior o universo de valores ultrapassados que me rodeia é hostil, cruel e implacável com minha condição, com minha personalidade, ou seja, comigo!! Já adulto, as vezes, sinto falta de um afago, de um carinho experiente e protetor que só encontramos naqueles seres sublimes a quem Deus, um dia, deu a responsabilidade de nos ter por dependentes material e afetivamente: nossos pais! Oro muito pelos meus. Não deveriam pensar em como estou, mais em como sou!! Tenho a certeza que segui meu coração da maneira mais cômoda pra me exercer sadiamente como ser humano. Se já pensei em suicídio pelo fato de não ser perfeito, lembro-me que ninguém o é, pela maldade do mundo, pelo ato de não amarem um ser humano, um amigo, um irmão, um filho acima de seus preconceitos. Ricardo Souto